Caótico dos Infernos – 9

Minha escola todo ano anunciava que ia construir uma piscina. Nunca construíram. Sempre diziam que os alunos do terceiro ano não iam precisar usar uniforme a partir do ano que vem. Sempre precisaram. Da única vez que eu precisei que eles não cumprissem o que prometiam, os desgraçados cumpriram.

Eu cheguei em casa e não vi ninguém, mas eu sabia pelo horário que minha mãe estava lá. Achei que a escola fosse demorar pelo menos um dia para telefonar.

– Mãe?

Nada.

-Mãe?

Fui até o quarto dela. Ela ainda estava com o telefone na mão. Como eu queria poder dizer que “ela me olhou de um jeito que eu nunca imaginei”, mas não posso: ela não olhou para mim. Ela não gritou, não xingou, nem bateu mas falou de mim com tanta raiva que eu nunca pensei que ela fosse capaz. O que ela falou? Para ser sincera eu não consigo mais lembrar. Falou que foi a pior coisa que já fizeram com ela (essa eu infelizmente temo jamais esquecer), que isso poderia prejudicá-la no trabalho e meu irmão na escola, que meu pai teria que saber… Falou um monte de coisas, mas eu não lembro. Quer um resumo? Foi uma merda.

Eu estava descontrolada. Lembro que na época eu tinha um diário que hoje me mata de vergonha e que escrevi nele umas coisas bem pesadas. Eu era o Kurt Cobain da La Girl naquele momento. Lembro que tinha uma faquinha que eu usava pra esculpir giz de cera. Em momento algum considerei cortar os pulsos, mas estava com tanta raiva que em um movimento brusco enfiei a faquinha na minha mão direita sem querer. Doeu.

O fim de semana foi do mesmo jeito. Eu só saí do meu quarto para comer, evitei fazer barulho ou usar alguma coisa elétrica – eu já dava desgosto, não precisava dar despesa também. Minha mãe não me disse uma palavra, nem meu irmão. Na verdade, eu nem vi o meu irmão. Tudo o que eu queria era que chegasse segunda-feira.

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Caótico dos Infernos – 8

Na manhã seguinte eu era imortal.

Eu fui para a escola de cabeça erguida, nada do que os outros alunos diziam me afetava. Eu tinha meus amigos, eu tinha minha mãe. Sozinha eu não estava. A maioria das pessoas diz que quando os colegas de escola descobriam que elas eram gays elas eram hostilizadas, humilhadas, excluídas. Eu não me senti nada disso. Eu poderia até estar sendo tudo isso, mas sinceramente nem vi. As pessoas me olhavam com curiosidade, gente que nunca tinha falado comigo veio me dizer qualquer coisa. Eu até aquele ano me sentia meio invisível para a maioria das pessoas, nunca fui muito extrovertida nem me destaquei em nada, mas naquela manhã estava tudo diferente. Eu preciso ser honesta aqui: Eu me senti uma celebridade. E adorei.

No recreio a Julia sentou perto de mim. Nós só estávamos conversando, ela falava alguma coisa sobre Cavaleiros do Zodíaco e eu fingia que tinha assistido quando era criança. Quando ela começou a falar de uma saga de Hades, de uns cavaleiros de ouro, de um Shaka de Virgem eu admito que me perdi um pouco, olhei pro lado e vi que quase todo mundo estava olhando para nós duas, como se esperassem que a gente se agarrasse ali mesmo. Eu queria agradar meus fãs, mas achei melhor ficar na minha.

-…Mas eu adoro o Shiryu. – ela concluiu finalmente.

-Eu também.

Seja ele quem for.

Era a última aula. Ela estava dormindo. Por alguma razão os professores nunca se importavam se ela dormisse, mas se fosse outro aluno era mandado pra coordenação. Eu ainda não sabia por quê e nem tinha me perguntado. Então de repente, não mais que de repente ele entrou na minha sala. O meu carrasco.

Ele era gestor, reitor, coordenador, ou sei lá o que da minha escola. Era ele quem mandava, isso é o que importa. Ele pediu licença ao professor e me tirou da sala. Nós precisávamos conversar. Eu morri de medo.

– Você sabe porque eu te chamei hoje, Elis?

– Acho que sim. – falei baixo.

– Por quê?

– Eu prefiro que você diga primeiro, não quero dar sugestões. – eu fico nervosa, eu falo merda.

Ele começou a me contar o que eu tinha feito. Era exatamente aquilo que eu pensava que tinha feito, só que aparentemente nós tínhamos tomados doses de tequila do corpo uma da outra, porque nunca na minha vida eu vi um beijo repercutir tanto. Eu fiquei lá, quieta enquanto ele me contava como tinha chegado aos ouvidos dele o nosso beijo. E pelo que ele falou, minha nossa, quem me dera que tivesse sido assim! Eu teria dito isso para quebrar o clima, mas quem eu quero enganar? Eu estava apavorada.

-Eu recebi ligações de pais exigindo que vocês fossem expulsas, as duas!

-Quantas?

– Muitas.

– Mais de dez?

Ele fez que sim com a cabeça. Sim, eu era uma celebridade. Hitler.

-Eu vou ser expulsa?

-Não. Elis, você sabe que essa escola é católica e exige uma certa conduta dos alunos. O bispo (Sim, a cereja do bolo é que quem mandava mesmo na minha escola era um bispo. Uma porra de um bispo. Sou ateia até hoje por causa disso.) soube do que aconteceu e vocês só não serão expulsas porque ele tem medo de uma parada gay na porta da escola se isso acontecer.

Eu não conhecia nenhum gay.

– Nós precisamos ligar para seus pais e contar o que aconteceu.

Era o que eu temia. Só ouvia a voz da minha mãe pedindo pra eu não me expor. Isso era a pior coisa que já tinha me acontecido. Meu estômago deu um nó eu não ouvi mais nada nem consegui falar.

Eu voltei para a sala e a Julia não estava mais lá, já tinha sido chamada para a forca também. O resto do dia passou por mim e eu nem vi, não conseguia pensar em nada, falar nada, comer nada. Eu queria morrer. Eu queria muito morrer.

– Eu quero ser atropelada, Paulo. – nós estávamos saindo da escola.

-Não fala besteira.

– Eu quero.

Ele não falou mais nada. Eu entrei no ônibus e fui o caminho inteiro fantasiando sobre a minha morte. E cheguei em casa viva.

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Caótico dos Infernos – 7

– Entra.

Eu entrei. Minha mãe estava assistindo televisão e arrumando umas prateleiras. Sentei na cama, tentei falar, mas nada saiu. Ela olhou preocupada.

– O que foi, Elis? Aconteceu alguma coisa?

– Uma coisa horrível, mãe. – eu falei baixo.

– Você vai repetir de ano? – ela era paranóica com notas.

– Nós estamos em maio, mãe.

– O que foi então?

– Mãe… Eu… Estou  apaixonada.

Ela riu. Eu entendi na hora que seria engraçado alguém achando estar apaixonado e achar a pior coisa do mundo, mas meu caso era mais grave.

– Minha filha, isso é muito bom! Qual o problema, ele não gosta de você?

– Acho que gosta.

– Qual o nome dele?

– Julia.

Ela me olhou como se me analisasse, por um tempo não disse nada até que:

– Bem, eu já esperava por isso.

– Como assim?

– Ah, Elis, você sempre andou com meninos, nunca se interessou pelas mesmas coisas que eu vejo as meninas da sua idade gostando, não liga para roupas…

Espera aí, eu ligo pras roupas que eu uso!

 Isso não é nada demais, filha. Eu acharia muito pior se você fosse repetir na escola.

Ela me abraçou. Eu estava muito aliviada.

– Você acha que isso é uma fase?

– Não.

– Só me faz um favor, não se expõe.

Meu alívio foi pelo ralo. Eu precisava dizer que era tarde demais, que a escola inteira já sabia que eu tinha beijado a menina no recreio, mas ao invés disso o que saiu foi:

– Tá. Boa noite.

– Boa noite filha.

Mesmo sabendo que era uma questão de tempo para o mundo cair na minha cabeça, naquela noite eu dormi mais leve.

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Caótico dos Infernos – 6

Lá estava eu. Tranquila, alegre e indiferente a ela. Sabe por quê? Porque eu era hétero. Aquilo tinha sido um lapso e eu era hétero. Tantos garotos na escola e eu fui cismar com aquela louca? “Cismar” era a palavra, porque eu não podia estar apaixonada por ela, já que eu era hétero. Hétero, hétero, hétero.  Toda hétero comendo meu pão de queijo no recreio. Se eu fosse lésbica ia comer, sei lá, churrasco. Pão de queijo era comida de hétero, que era o que eu era.

Minha heterossexualidade virou fumaça quando olhei para o lado e a vi se aproximando.

-Oi. – ela disse.

-Oi.

-Você não fala mais comigo…

-Não.

-Por que não?

-Por que você acha?

Ela não disse nada. Isso me deu muita raiva.

-Por que você não vai ficar com seu namorado e me deixa em paz? Está com medo que eu conte a ele que a gente ficou? Porque eu prefiro morrer a me dirigir a ele. Ou a você, e se você puder me dar licença eu agradeço, estou tentando comer.

-Ele não é meu namorado faz tempo… Ele terminou comigo…

-Quer que eu chore com você? – falei, irônica.

-…Por que tinha ciúmes…

-Com toda razão!

-…De você.

Pra isso eu não tinha resposta. Eu sei que não é nenhuma declaração de amor de filme, mas o jeito que ela falou aquilo derrubou todos os muros que eu tinha construído para me proteger. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa ela me beijou. Bem ali, no pátio, na frente de todo mundo. Coca light, cigarro e Trident de canela. Que saudade! Que sensação maravilhosa! Enquanto ela me beijava três coisas passaram pela minha cabeça:

1- Será que isso significa que ela também gosta de mim?

2- Hétero my ass! Vou contar para minha mãe hoje e não me importa o que aconteça.

3- Espero que não tenha muita gente vendo isso, vão me zoar muito na sala.

Então o beijo acabou. Eu abri os olhos bem devagar e foi a segunda vez que o mundo mudou completamente ao meu redor. Um fato sobre minha escola que eu esqueci de mencionar: Ela é católica.

Centenas (e eu não estou exagerando) de alunos me encarando, estarrecidos. Alguns com cara de surpresa, alguns com cara de nojo. Alguns riam, outros comentavam. Crianças que passavam pelo pátio nesse exato momento (outro exemplo da minha sorte) me olhavam chocadas. Inspetores, coordenadores, professores. Todos me encaravam como algo inédito, como se alguém tivesse largado uma bomba no meio do pátio e ninguém soubesse desarmá-la, tinham medo que eu explodisse ali mesmo, matando centenas de inocentes.

Meu corpo inteiro ficou dormente, exceto pela minha mão, que segurava a dela. Essa era a única parte que eu sentia.

-Você está louca, Elis! – Dario, Gabriel e Paulo disseram juntos, mais tarde naquele dia, quando eu disse que ia contar para minha mãe.

-Eu preciso contar.

-E se ela não aceitar?

-Ela vai aceitar. Além disso, se algum amigo do meu irmão tiver visto, pode contar pra ele.

-Você está fodida.

-Estou.

Naquele dia eu não sabia bem o que estava sentindo. Todos me olhavam onde eu fosse, todos falavam sobre mim e nem disfarçavam. Alguns alunos mais velhos faziam piadas, alguns dos meus amigos estavam chocados, tinham acabado de descobrir tudo. O Rodrigo! Um dos meus melhores amigos descobriu ali, junto com todo mundo. Ele merecia saber antes. Eu queria que ele tivesse sabido antes dos outros, precisava dizer isso a ele.

-Rodrigo, eu…

Ele me abraçou. Só isso.

-Ela é mais bonita que o Paulo, Elis.

E aquilo me deu a coragem que faltava e que eu quase perdi quando bati na porta do quarto da minha mãe aquela noite.

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Caótico dos Infernos – 5

Ah, mas eu contei os segundos para a aula de segunda feira. Cheguei cedo, mesmo sabendo que ela dificilmente chegaria no horário. Engano meu. Quando menos esperava a vi de longe, no final do corredor, conversando com… O namorado!

Puta que o pariu, caralho, porra!  Como eu fui esquecer que ela tem namorado? Como ela pôde fazer isso com ele…? COMO ELA PÔDE FAZER ISSO COMIGO?! 

Nessa hora, companheiro, eu fiz a Maysa Matarazzo: Meu mundo caiu. O maior banho de água fria da história. Que dor era aquela? Eu estava tendo um ataque cardíaco?  Minhas entranhas se reviraram, eu quis correr, quis gritar, quis vomitar… Mas só fiquei ali, parada, olhando de longe. Nesse momento eu entendi o que significava a palavra “decepção”.

Num momento desgraçado, desses que a gente quer morrer, o olhar dela cruzou com o meu. Ela imediatamente ficou séria, parecendo surpresa, até envergonhada. Eu tinha que sair dali. Entrei na sala de aula. Seis longas horas de uma tortura lenta me esperavam, mas eu não podia perder a dignidade. A última coisa que eu queria era uma cena na escola, que todos os meus colegas descobrissem o que eu realmente era. Lésbica? Não. Uma porra de idiota!

Abri um livro qualquer e fingi ler. Não me permiti erguer os olhos até ter certeza de que ela já estava em seu lugar, a uma distância segura de mim. Escutei a voz dela, rindo de alguma coisa com o Paulo, e por um momento odiei os dois.  Eu não conseguia acreditar que tinha sido usada, enganada tão facilmente. A voz dela rodava na minha cabeça… “Você é linda.”… Como se debochasse de mim. Abaixei a cabeça, mas não chorei.

Iguais a esse dia foram os próximos. Eu me forçava a agir como se estivesse tudo bem, ria alto quando ela estava perto, fingia que nunca tínhamos sido apresentadas. Durante a aula era tudo mais fácil, era só sentar na frente. Ela nunca sentava na frente,tomava uns remédios tarja preta e tinha vontade de dormir nas aulas. O recreio é que era um inferno. No pátio eu não conseguia não olhar para ela, sentada no canto, ouvindo música com o namorado. Às vezes ela me olhava também, mas antes que qualquer coisa acontecesse eu fugia.

Minhas notas caíram. Eu, que sempre fui boa aluna, fiquei de recuperação em várias matérias. Eu chegava sempre atrasada. Comecei a faltar o inglês.  Minha mãe ficou preocupada.

-O que está acontecendo, Elis?

Eu estava (fingindo que estava) dormindo, não respondi. Ela insistiu.

-Elis. – disse com autoridade – O que está acontecendo com você, minha filha? Suas notas todas caíram.

-É o segundo grau, mãe. É tudo mais difícil agora. – E era mesmo, mas não nas matérias.

-Então você tem que estudar mais! Você dorme o dia inteiro, não se interessa por nada. Eu acho bom que suas notas subam, você só tem isso para se preocupar! Pare de jogar meu dinheiro no lixo.

E saiu do meu quarto. Eu continuei encarando o teto. Eu queria contar a ela tudo o que estava acontecendo. Nós sempre fomos muito próximas, era a primeira vez que eu tinha um segredo. Na verdade eu morria de medo. Quantas pessoas era próximas dos pais e quando contavam a eles que eram gays a relação mudava completamente? E se minha mãe sentisse vergonha de mim? E se ela não me quisesse mais? Eu não tinha coragem, simples assim. Seria melhor se ao invés de contar eu consertasse isso. Eu já tinha namorado o Paulo, não me custava nada namorar outros garotos o resto da vida. De repente o resto da minha vida pareceu tempo demais. Eu seria infeliz, mas e daí? Eu estava infeliz de qualquer jeito, e, se essa condição parecia imutável eu poderia escolher o caminho que não decepcionaria minha família.

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Caótico dos Infernos – 4

Eu não podia acreditar, mas ela estava lá. Essa foi a primeira vez que meu estômago saiu do corpo. Por exatamente um segundo eu não tive estômago. Não sei se você conhece essa sensação, é engraçada. Eu senti algumas vezes na vida e, sempre que meu estômago volta, parece que veio faltando um pedaço. Tem algum universo paralelo uns pedaços do meu estômago.

-Oi.

-Oi.

-Desculpe o atraso, não consegui ônibus…

-Tudo bem…

Aquele silêncio desconfortável. O Dario interrompeu:

-Acho que o filme já começou.

Eu que nem lembrava de filme nenhum tive que perguntar a ela:

-Quer ver outro?

-Não. Quer dar uma volta?

Eu queria sim. Não me pergunte o que os meninos fizeram nesse tempo, eles que criem um blog se quiserem contar. Nós fomos dar a nossa volta.

Andamos, andamos, andamos. Impressionante como nenhum lugar parecia confortável, apropriado nem mesmo digno de receber um momento que mudaria para sempre a dinâmica do universo. Do meu, pelo menos. Às vezes não tínhamos o que dizer e eu estava começando a ter medo que ela se entediasse e fosse embora.

-Estou com sede.

Mentira.

-Quer beber alguma coisa?

Não.

-Aham.

Entramos em um bar qualquer. Uma água para mim, uma Coca light para ela. Saímos e sentamos em um ponto de ônibus vazio. A porra do silêncio outra vez. Um cachorro de rua se aproximou de nós e ela começou a brincar com ele e acariciá-lo.

-Cachorro de sorte.

Puta merda, eu não acredito que disse isso!

-O quê?

-Nada!

Ela fingiu que não tinha escutado, mas sorriu divertida. Ficou de pé e me puxou para que eu também levantasse, ficando a alguns passos de distância. Olhei um pouco confusa.

-Assim você tem tempo de fugir se quiser – explicou.

Fechei os olhos. Um… Dois… Três… E tudo virou vapor em minha volta quando os lábios dela tocaram os meus. As mãos… Uma segurava minha cintura, a outra meu cabelo. O gosto de cigarro, Trident de canela e Coca light. O metal gelado do piercing. O corpo contra o meu. O cabelo que insistia em entrar no meio do beijo e eu não me importava. Eu morreria ali mesmo.

Como foi estranho abrir os olhos depois daquele beijo e ver o mundo inteiro completamente diferente do que eu me lembrava. Como foi estranho pela primeira vez sentir que eu era parte daquele mundo que eu tinha passado quinze anos assistindo. Ela interrompeu minha metafísica:

-Você é linda.

Eu nunca tinha dormido tão feliz quanto nessa noite.


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Caótico dos Infernos – 3

Tudo o que eu mais queria nos dias seguintes era ir para a escola. Ela faltou na sexta-feira e o fim de semana foi uma tortura. Domingo à tarde aconteceu uma coisa que serve como exemplo da minha sorte: eu fiquei doente. Uma virose qualquer, dessas que todo mundo tem, me deixou de cama a semana inteira. Eu estava sem notícias, sem poder sair de casa e muito, muito puta. O Dario me ligou um dia.

– E aí, como você está?

– Dario, minha vida é tão ruim que deve ser feita de soja.

Nós conversamos um tempo, depois eu continuei lá, deitada, assistindo os DVDs de Friends do meu irmão.

Sim, eu tenho um irmão, o Francisco. Elis e Chico, eu sei. Pode fazer piadinhas à vontade, meu pai que escolheu. Ele era músico. Depois que eles se separaram eu e meu irmão ficamos com a minha mãe, ele mudou de cidade. O pai vai, o nome fica.

Lá pela quinta-feira eu já me sentia bem, mas minha mãe achou melhor eu descansar. Ela não fazia ideia da tortura pela qual eu estava passando. No sábado eu descobri a minha música da sorte.

Estava assistindo MTV, começou a tocar Nem 5 minutos guardados, dos Titãs (http://www.youtube.com/watch?v=e2nqyfmHR1U) e quando chegou o refrão um milagre aconteceu. Meu celular tocou, era ela.

– Alô?

– Elis? Você tá bem? O Paulo disse que você estava doente… Eu fiquei preocupada…

Ela parecia nervosa. Adorei isso.

– Eu? Não, já estou boa! Aproveitei para faltar… Já estou de saco cheio de ir pra escola…

Deus, como eu menti mal.

– Ah, sim… Então… Você quer fazer alguma coisa? Tipo, amanhã… Se você quiser.

– Quero!

Minha voz saiu mais fina do que nunca. Merda.

– A gente podia ir ao cinema, se você quiser. Pode chamar os meninos.

Merda! Agora se eu não chamar ela vai achar que eu só quero ir com ela! Mas eu só quero ir com ela. E agora? Ela não pode saber! Ela só quer ir ao cinema, quer que eu leve um monte de gente. Ela não quer ficar comigo, deve querer ficar com um deles. O que eu faço? Preciso responder… Logo!

– Claro, vou falar com eles.

Merda!

 Ok! Te vejo amanhã então.

Tá, ela queria que eu levasse um monte de gente, mas ela também  queria que eu fosse. Mesmo que não fosse para ficar com ela, nós nunca tínhamos saído juntas e eu estava muito nervosa. Nunca um domingo demorou tanto para chegar. Até que ele chegou.

O Dario e o Gabriel já estavam lá quando eu cheguei. O Paulo não ia. Ela demorou muito para chegar. No meu estado de nervos um minuto parecia um ano, então imagine mais de uma hora, pois foi o tempo que já tinha passado da hora que tínhamos marcado.

– Ela não vem.

– Vem sim, relaxa.

– Não. Vamos embora.

– Ela veio.

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