Caótico dos Infernos – 1

Essa é a história de como a minha vida começou. Há um hiato de quinze anos entre eu ter nascido e minha vida ter realmente começado, se tiver alguma informação importante nesse hiato eu acrescento na hora que precisar. Ok.

Eu tinha quatro amigos, Gabriel, Dario, Rodrigo e Paulo, meus melhores amigos. Eu tinha um amigo, Paulo, meu melhor amigo. Ele era bonito, inteligente e me gravava vários cds naquela época da Internet discada que cada música levava uma hora para ser baixada. Ele gostava de mim. Em uma noite estrelada, no sítio de um amigo de escola, nós começamos a namorar. Em uma tarde ensolarada no fim da aula eu resolvi terminar.

-Preciso falar com você.

-Não precisa, eu sei.

Por favor, pergunte o motivo. Por favor, pergunte o motivo.

– Você não vai me perguntar por quê?

– Não.

E ele foi embora. Minha torcida de nada adiantou, ele não perguntou nada e eu não pude finalmente dizer o que nunca tinha tido coragem de dizer em voz alta:

– Porque eu gosto de mulher.

Nós estudávamos juntos, então nos víamos quase todos os dias, mas as coisas ficaram estranhas. Ficávamos sempre sem jeito perto do outro, evitando assuntos delicados. Chegaram as férias de fim de ano, amém! Não nos vimos por dois meses inteiros e quando as aulas voltaram estava tudo mais ameno. Ele certamente não gostava mais de mim, porque não ficava mais desconfortável quando eu aparecia, a menos que estivesse falando sobre as meninas da escola que do nada começaram a querer ficar com ele.

Eu estava bem. Bem. Bem, bem eu não estava. A frase que eu não disse quando terminei com o Paulo continuava entalada na garganta, querendo cada vez mais escapar e cada dia isso me incomodava mais, mas uma coisa que eu aprendi nesse hiato foi: melhor ficar quieta às vezes.

Um dia o pessoal da sala ia ao cinema. Eu cheguei mais cedo porque já estava por perto e logo depois chegou o Paulo, que morava por ali, com uma cara horrível. Eu imaginei que fosse alguma coisa com alguma garota e como eu mesma não estava nos meus melhores dias, não disse nada. Uns dez minutos em silêncio.

– Elis, eu sou gay.

Gay?! Logo você? E as meninas da escola? E nosso namoro? Gay?! Essa fala é minha, porra!

– Sério?

-É. E eu gosto do Gabriel.

-Cacete, Paulo, conta isso direito!

Não preciso nem contar que nessa hora chegaram as outras pessoas e ele não me contou foi nada. Eu atordoada, entrei na sala de cinema (não me pergunte qual era o filme!) e sentei ao lado dele. O trailer começou e acabou, o filme começou e ia acabar também. Eu sabia o que tinha que fazer.

– Paulo? Eu também.

Ele não disse nada. Nunca antes na história desse país um final de filme demorou tanto. Quando acabou o pessoal queria ir comer alguma coisa. Não dava, de jeito nenhum eu ia esperar mais. Nem o Paulo. Demos uma desculpa qualquer e fomos para a casa dele, que estava vazia.

– Conta isso, Paulo! Gay?

– Eu sou bi.

– É, eu também.

– Na verdade, eu sou gay.

– É, eu também.

– O Gabriel sabe?

– Sabe.

– E ele?

– É que nem você, gosta de mulher. E você, gosta de alguém?

– Não.

– Ninguém que te interesse?

– Talvez uma pessoa.

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