Caótico dos Infernos – 4

Eu não podia acreditar, mas ela estava lá. Essa foi a primeira vez que meu estômago saiu do corpo. Por exatamente um segundo eu não tive estômago. Não sei se você conhece essa sensação, é engraçada. Eu senti algumas vezes na vida e, sempre que meu estômago volta, parece que veio faltando um pedaço. Tem algum universo paralelo uns pedaços do meu estômago.

-Oi.

-Oi.

-Desculpe o atraso, não consegui ônibus…

-Tudo bem…

Aquele silêncio desconfortável. O Dario interrompeu:

-Acho que o filme já começou.

Eu que nem lembrava de filme nenhum tive que perguntar a ela:

-Quer ver outro?

-Não. Quer dar uma volta?

Eu queria sim. Não me pergunte o que os meninos fizeram nesse tempo, eles que criem um blog se quiserem contar. Nós fomos dar a nossa volta.

Andamos, andamos, andamos. Impressionante como nenhum lugar parecia confortável, apropriado nem mesmo digno de receber um momento que mudaria para sempre a dinâmica do universo. Do meu, pelo menos. Às vezes não tínhamos o que dizer e eu estava começando a ter medo que ela se entediasse e fosse embora.

-Estou com sede.

Mentira.

-Quer beber alguma coisa?

Não.

-Aham.

Entramos em um bar qualquer. Uma água para mim, uma Coca light para ela. Saímos e sentamos em um ponto de ônibus vazio. A porra do silêncio outra vez. Um cachorro de rua se aproximou de nós e ela começou a brincar com ele e acariciá-lo.

-Cachorro de sorte.

Puta merda, eu não acredito que disse isso!

-O quê?

-Nada!

Ela fingiu que não tinha escutado, mas sorriu divertida. Ficou de pé e me puxou para que eu também levantasse, ficando a alguns passos de distância. Olhei um pouco confusa.

-Assim você tem tempo de fugir se quiser – explicou.

Fechei os olhos. Um… Dois… Três… E tudo virou vapor em minha volta quando os lábios dela tocaram os meus. As mãos… Uma segurava minha cintura, a outra meu cabelo. O gosto de cigarro, Trident de canela e Coca light. O metal gelado do piercing. O corpo contra o meu. O cabelo que insistia em entrar no meio do beijo e eu não me importava. Eu morreria ali mesmo.

Como foi estranho abrir os olhos depois daquele beijo e ver o mundo inteiro completamente diferente do que eu me lembrava. Como foi estranho pela primeira vez sentir que eu era parte daquele mundo que eu tinha passado quinze anos assistindo. Ela interrompeu minha metafísica:

-Você é linda.

Eu nunca tinha dormido tão feliz quanto nessa noite.


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