Caótico dos Infernos – 5

Ah, mas eu contei os segundos para a aula de segunda feira. Cheguei cedo, mesmo sabendo que ela dificilmente chegaria no horário. Engano meu. Quando menos esperava a vi de longe, no final do corredor, conversando com… O namorado!

Puta que o pariu, caralho, porra!  Como eu fui esquecer que ela tem namorado? Como ela pôde fazer isso com ele…? COMO ELA PÔDE FAZER ISSO COMIGO?! 

Nessa hora, companheiro, eu fiz a Maysa Matarazzo: Meu mundo caiu. O maior banho de água fria da história. Que dor era aquela? Eu estava tendo um ataque cardíaco?  Minhas entranhas se reviraram, eu quis correr, quis gritar, quis vomitar… Mas só fiquei ali, parada, olhando de longe. Nesse momento eu entendi o que significava a palavra “decepção”.

Num momento desgraçado, desses que a gente quer morrer, o olhar dela cruzou com o meu. Ela imediatamente ficou séria, parecendo surpresa, até envergonhada. Eu tinha que sair dali. Entrei na sala de aula. Seis longas horas de uma tortura lenta me esperavam, mas eu não podia perder a dignidade. A última coisa que eu queria era uma cena na escola, que todos os meus colegas descobrissem o que eu realmente era. Lésbica? Não. Uma porra de idiota!

Abri um livro qualquer e fingi ler. Não me permiti erguer os olhos até ter certeza de que ela já estava em seu lugar, a uma distância segura de mim. Escutei a voz dela, rindo de alguma coisa com o Paulo, e por um momento odiei os dois.  Eu não conseguia acreditar que tinha sido usada, enganada tão facilmente. A voz dela rodava na minha cabeça… “Você é linda.”… Como se debochasse de mim. Abaixei a cabeça, mas não chorei.

Iguais a esse dia foram os próximos. Eu me forçava a agir como se estivesse tudo bem, ria alto quando ela estava perto, fingia que nunca tínhamos sido apresentadas. Durante a aula era tudo mais fácil, era só sentar na frente. Ela nunca sentava na frente,tomava uns remédios tarja preta e tinha vontade de dormir nas aulas. O recreio é que era um inferno. No pátio eu não conseguia não olhar para ela, sentada no canto, ouvindo música com o namorado. Às vezes ela me olhava também, mas antes que qualquer coisa acontecesse eu fugia.

Minhas notas caíram. Eu, que sempre fui boa aluna, fiquei de recuperação em várias matérias. Eu chegava sempre atrasada. Comecei a faltar o inglês.  Minha mãe ficou preocupada.

-O que está acontecendo, Elis?

Eu estava (fingindo que estava) dormindo, não respondi. Ela insistiu.

-Elis. – disse com autoridade – O que está acontecendo com você, minha filha? Suas notas todas caíram.

-É o segundo grau, mãe. É tudo mais difícil agora. – E era mesmo, mas não nas matérias.

-Então você tem que estudar mais! Você dorme o dia inteiro, não se interessa por nada. Eu acho bom que suas notas subam, você só tem isso para se preocupar! Pare de jogar meu dinheiro no lixo.

E saiu do meu quarto. Eu continuei encarando o teto. Eu queria contar a ela tudo o que estava acontecendo. Nós sempre fomos muito próximas, era a primeira vez que eu tinha um segredo. Na verdade eu morria de medo. Quantas pessoas era próximas dos pais e quando contavam a eles que eram gays a relação mudava completamente? E se minha mãe sentisse vergonha de mim? E se ela não me quisesse mais? Eu não tinha coragem, simples assim. Seria melhor se ao invés de contar eu consertasse isso. Eu já tinha namorado o Paulo, não me custava nada namorar outros garotos o resto da vida. De repente o resto da minha vida pareceu tempo demais. Eu seria infeliz, mas e daí? Eu estava infeliz de qualquer jeito, e, se essa condição parecia imutável eu poderia escolher o caminho que não decepcionaria minha família.

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