Caótico dos Infernos – 2

Ela.

Tinha acabado de entrar na minha escola. Um ano mais velha, repetiu uma série que eu nunca soube qual. Diferente de todo mundo que eu tinha conhecido e eu soube disso assim que a vi. Eu nunca tinha me sentido daquele jeito, tão… Não sei qual a palavra, mas ela me dava vontade de cantar.

Acho desnecessário dar longas descrições sobre as pessoas. Na maioria das histórias dizem que a Fulana tem cabelos esvoaçantes, um físico escultural, olhos azuis e os maiores peitos da América do Sul. Honestamente, prefiro não fazer isso. Vocês imaginem como quiserem, tudo o que vou dizer é que ela tinha a pele clara, mas um pouco mais morena que a minha, cabelos castanhos quase até a cintura, muito lisos, olhos castanhos e um sorriso lindo com um piercing no lábio inferior. Não tinha cara de atriz pornô, nunca me lembrou nenhuma pin up, mas para mim era linda. O nome? Julia.

Ela de cara ficou amiga do Paulo. Não gostava de quase ninguém da sala, era implicante com a maioria e fazia o tipo rebelde. Dormia nas aulas, chegava bêbada, fumava, faltava sempre. Parecia louca, era o que diziam. Tão diferente de mim, que sempre fui certinha. Mas comigo sempre foi simpática, talvez por eu ser amiga do Paulo.

Nunca tínhamos conversado realmente, nunca apareceu oportunidade, até uma manhã de quarta-feira. Teríamos prova mais tarde, mas o Dario estava doente e acabou fazendo a prova logo cedo, contanto que prometesse não dizer para ninguém o que caía. Ele disse, é claro. No intervalo a sala inteira já sabia todas as questões, menos a Julia, que tinha chegado atrasada e não estava entendendo nada. Ela, que sempre sentava no fundo não encontrou lugar e acabou sentando na frente, ao meu lado. E foi assim nossa primeira conversa:

– O que está acontecendo?

– O Dario fez a prova mais cedo e passou todas as questões da prova pra gente.

– Tem prova hoje?!

– Tem.

Ela parecia completamente perplexa. Eu podia ver em seus olhos o que ela pensava: Estou fodida. 

Resolvi ajudar. Passei para ela todas as perguntas e as respostas que o Dario tinha falado. Quando terminei ela sorriu para mim e disse:

– Obrigada, moça.

Eu sorri de volta e não disse nada. Ninguém nunca tinha me chamado assim, pelo menos ninguém que importasse. Eu acho que ela poderia ter me chamado de qualquer coisa e ainda assim eu acharia o máximo. Sim, eu estava apaixonada.

No dia seguinte estávamos na quadra de educação física. Paulo, Dario, Gabriel e eu um pouco afastados dos outros. Era hora da verdade. O Paulo falou primeiro.

– Dario, o Gabriel já sabe e eu queria te contar. Eu soy gay. A Elis também. Dessa você não sabia, né, Gabriel?

– Não…

O Dario não disse nada por um tempo, só olhou perplexo, até que disse:

– Eu também.

Ficamos ali, os quatro meio chocados, nem percebemos que não estávamos sozinhos. A Julia tinha passado por perto e ouvido tudo. Nos assustamos quando ela falou:

– Deve ter alguma coisa na água dessa escola. Eu também sou.

Alguns minutos em silêncio. Interrompidos pelo Gabriel:

– Eu não sou!

Nós rimos. O Paulo nem tanto, riu sem graça, só para disfarçar.

Depois desse dia a Julia ficou nossa amiga. Nós nunca saíamos, mas conversávamos na escola, quando ela ia. Um fato curioso sobre ela: Ela tinha namorado. Era um garoto da escola, um ano mais velho. Ela nunca sabia se gostava ou não dele, se gostava de mulher, se terminava ou não. Isso me matava, mas nunca toquei no assunto. Era com o Paulo que ela falava isso e ele me contava tudo.

– Ela disse que quer ficar com você!

Eu não acreditei quando ouvi.

– O quê?!

– Ela disse que gosta de você, Elis.

– Mas ela tem namorado…

– Ela me falou agora! Ela quer ficar com você. Disse que te acha linda e isso  e aquilo e blablablá.

– Conta tudo! O que ela disse?!

– Ah, não lembro tudo! Mas era tipo isso que eu disse.

– Porra, Paulo! Nem pra lembrar!

Eu nunca tinha estado tão feliz na vida. Fiquei o dia inteiro me segurando para não olhar para ela, sentada lá atrás, tão linda dormindo.

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Caótico dos Infernos – 1

Essa é a história de como a minha vida começou. Há um hiato de quinze anos entre eu ter nascido e minha vida ter realmente começado, se tiver alguma informação importante nesse hiato eu acrescento na hora que precisar. Ok.

Eu tinha quatro amigos, Gabriel, Dario, Rodrigo e Paulo, meus melhores amigos. Eu tinha um amigo, Paulo, meu melhor amigo. Ele era bonito, inteligente e me gravava vários cds naquela época da Internet discada que cada música levava uma hora para ser baixada. Ele gostava de mim. Em uma noite estrelada, no sítio de um amigo de escola, nós começamos a namorar. Em uma tarde ensolarada no fim da aula eu resolvi terminar.

-Preciso falar com você.

-Não precisa, eu sei.

Por favor, pergunte o motivo. Por favor, pergunte o motivo.

– Você não vai me perguntar por quê?

– Não.

E ele foi embora. Minha torcida de nada adiantou, ele não perguntou nada e eu não pude finalmente dizer o que nunca tinha tido coragem de dizer em voz alta:

– Porque eu gosto de mulher.

Nós estudávamos juntos, então nos víamos quase todos os dias, mas as coisas ficaram estranhas. Ficávamos sempre sem jeito perto do outro, evitando assuntos delicados. Chegaram as férias de fim de ano, amém! Não nos vimos por dois meses inteiros e quando as aulas voltaram estava tudo mais ameno. Ele certamente não gostava mais de mim, porque não ficava mais desconfortável quando eu aparecia, a menos que estivesse falando sobre as meninas da escola que do nada começaram a querer ficar com ele.

Eu estava bem. Bem. Bem, bem eu não estava. A frase que eu não disse quando terminei com o Paulo continuava entalada na garganta, querendo cada vez mais escapar e cada dia isso me incomodava mais, mas uma coisa que eu aprendi nesse hiato foi: melhor ficar quieta às vezes.

Um dia o pessoal da sala ia ao cinema. Eu cheguei mais cedo porque já estava por perto e logo depois chegou o Paulo, que morava por ali, com uma cara horrível. Eu imaginei que fosse alguma coisa com alguma garota e como eu mesma não estava nos meus melhores dias, não disse nada. Uns dez minutos em silêncio.

– Elis, eu sou gay.

Gay?! Logo você? E as meninas da escola? E nosso namoro? Gay?! Essa fala é minha, porra!

– Sério?

-É. E eu gosto do Gabriel.

-Cacete, Paulo, conta isso direito!

Não preciso nem contar que nessa hora chegaram as outras pessoas e ele não me contou foi nada. Eu atordoada, entrei na sala de cinema (não me pergunte qual era o filme!) e sentei ao lado dele. O trailer começou e acabou, o filme começou e ia acabar também. Eu sabia o que tinha que fazer.

– Paulo? Eu também.

Ele não disse nada. Nunca antes na história desse país um final de filme demorou tanto. Quando acabou o pessoal queria ir comer alguma coisa. Não dava, de jeito nenhum eu ia esperar mais. Nem o Paulo. Demos uma desculpa qualquer e fomos para a casa dele, que estava vazia.

– Conta isso, Paulo! Gay?

– Eu sou bi.

– É, eu também.

– Na verdade, eu sou gay.

– É, eu também.

– O Gabriel sabe?

– Sabe.

– E ele?

– É que nem você, gosta de mulher. E você, gosta de alguém?

– Não.

– Ninguém que te interesse?

– Talvez uma pessoa.

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Meu primeiro post, algumas formalidades.

Muito prazer, meu nome é Elis. Eu sou a menina da foto. Não saí muito bem, foi tirada um dia na escola, mas eu tenho poucas então vai essa mesmo. Esse primeiro post é só para me apresentar mesmo, não quero começar bombardeando você com minhas histórias assim, a seco. Você pode me conhecer melhor clicando em “Apresentação” ali em cima.

Espero não entediar ninguém aqui. Você que está lendo isso, comente! Se gostar, se não gostar, se tiver alguma pergunta ou sugestão – o legal é interagir, detesto falar sozinha. Você também pode me escrever se quiser: falecomaelis@hotmail.com vou me sentir uma celebridade!

Os textos e desenhos desse blog são meus, todos os direitos reservados e tudo mais, então peço que se você gostar de alguma coisa e quiser publicar em algum lugar, por favor me dê os créditos. Fora isso, as músicas e vídeos que eu postar aqui não são meus e têm a finalidade de ilustrar e complementar o que eu escrever, todos os créditos para seus respectivos donos, que disseram melhor que eu exatamente o que eu queria dizer.

Beijos!

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